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Turismo de parto e sauna da Sibéria: como Florianópolis se tornou a capital da Rússia no Brasil

06 de September de 2026 0 leituras
Turismo de parto e sauna da Sibéria: como Florianópolis se tornou a capital da Rússia no Brasil
Foto: https://kaboompics.com/ / Pexels

Eugenio era topógrafo na Rússia, migrou para Florianópolis em 2020 e começou a vender sobremesas típicas pela Internet. Deu tão certo que ele abriu seu próprio café em Jurerê. No mesmo bairro nobre mora Anastasia, que trabalhava para uma marca alemã na Rússia e abriu um estúdio de bem-estar há quase um ano. No espaço, instrutoras russas e brasileiras dão aulas de yoga, pilates e dança.

Outro Eugênio virou marido de aluguel: faz bicos de elétrica, hidráulica, limpeza de estofados e transporte particular na capital catarinense. Sua renda já é superior ao que ele recebia com trabalhos administrativos em São Petersburgo.

Já Natalia e Stanislav administram uma sauna russa. Na Sibéria, de onde vieram, ele era programador e ela era diretora de uma empresa atacadista.

Todos eles são cidadãos russos que fugiram da guerra, escolheram Florianópolis para morar e se reinventaram, cada um à sua maneira, dentro de uma comunidade do país que não para de crescer.

Dados do Sistema de Registro Nacional Migratório mostram que, desde a eclosão da guerra entre a Rússia e a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, Santa Catarina virou o principal refúgio de cidadãos russos no Brasil. Desde então, o estado recebeu 1.317 pedidos de residência, superando os 881 de São Paulo.

Isso significa que quase 1 em cada 3 russos que chegaram ao Brasil escolheu o território catarinense para morar — e Florianópolis concentra quase 90% dessa legião no estado (1.176 pessoas, segundo dados oficiais).

Esse fenômeno fez o “turismo de parto” disparar na capital catarinense. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, 492 crianças de mães russas nasceram em Santa Catarina de 2020 até julho de 2026.

No pós-guerra, o número de partos deu um salto de apenas 13 em 2022 para 113 em 2023, alta de 769%. No ano passado, o nascimento de russinhos-brasileiros bateu recorde: 123 bebês. E tudo indica que esse número será superado este ano.

O motivo da escolha dos russos pelo Brasil e, em especial, por Florianópolis, vai além da hospitalidade brasileira ou da qualidade de vida e do clima ameno da Ilha da Magia: dar à luz no Brasil dá direto à cidadania brasileira via Jus Soli.

Nosso passaporte — isento de visto para a União Europeia, por exemplo — é muito mais forte que o documento russo.

Para efeito de comparação, no ranking global de mobilidade mais recente da Henley & Partners, o documento brasileiro figura como o 16º mais poderosos do mundo, enquanto o passaporte russo amarga a 48ª posição, com forte restrição internacional.

Em um momento de incertezas, envolvendo guerra e migração forçada, a facilidade de obter um documento que legaliza a residência no Brasil e facilita o acesso a outros países conta muito.

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Os novos negócios dos russos

Muitos russos chegam, têm filhos, ganham a cidadania brasileira e vão embora. Mas muitos ficam.
É cada vez mais comum ouvir a língua russa por toda Florianópolis, principalmente no Norte, em bairros como Jurerê, Canasvieiras e Ingleses, e ao Sul, na região do Campeche.

Se os registros formais de residência apontam pouco mais de mil russos na capital, comunidades no Telegram voltadas a eslavos em Florianópolis chegam a reunir mais de 10 mil membros.

Essa presença vai ficando cada vez mais perceptível com o surgimento de pequenos negócios que rompem a bolha da comunidade de imigrantes e a barreira da informalidade.

Dados da Junta Comercial de Santa Catarina (Jucesc) obtidos pela reportagem revelam que 141 empresas foram abertas em Florianópolis contendo ao menos um sócio de nacionalidade russa desde janeiro de 2022.

Cruzando com os registros da Polícia Federal na cidade, isso significa que pelo menos 12% dos russos formalizaram negócios próprios na capital.

Um deles é Eugênio Trifonov, 39, o topógrafo que virou confeiteiro. Na Rússia, fazer doces era apenas um hobby, mas em Floripa virou sua ocupação principal. “Comecei a fazer tortas russas porque tinha saudades e porque as sobremesas brasileiras são muito doces. Aí passei a vender para outros russos pela internet.”

Conforme a comunidade russa em Florianópolis foi crescendo, os pedidos foram aumentando. Eugênio saiu da informalidade, abriu um CNPJ e, no início de agosto, inaugurou o café Kiss My Cake em Jurerê, reduto de russos no Norte da Ilha. O local, imediatamente, virou um point de famílias russas e seus brasileirinhos.

“Eu sou da Rússia, então estou acostumado com burocracia”, brinca. “Para formalizar o negócio e virar empresário foi fácil. O que mais me tomou tempo foi encontrar um lugar adequado, que permitisse as reformas que eu queria, e lidar com toda a papelada para alugar.”

Eugênio e seu parceiro paraense Luyllis Telles Trifonov pegaram três empréstimos e reformaram o local com as próprias mãos, caprichando na decoração com motivos russos, entre matryoshkas e imagens do urso Misha, mascote das Olimpíadas de 1980, na então União Soviética.

Desde que abriram o café, eles acordam às 5h e vão dormir à meia-noite. “Quando olho para o meu próprio café, nem consigo acreditar”, comemora Eugênio. O movimento tem sido tão positivo que eles devem contratar dois novos funcionários em setembro.

O confeiteiro — e agora empresário — conta que os russos ainda são a maioria entre os clientes, mas o público brasileiro aumenta a cada dia e os pedidos de encomenda triplicaram.

O menu, que começou focado em sobremesas russas, como o bolo de mel Medovik ou a massa folhada Napoleon, agora também serve refeições típicas.

O pelmeni, massa recheada tradicional nos países eslavos, e o borsch, espécie de sopa de beterraba, também entraram no menu. “Quero que mais brasileiros conheçam nossa culinária!”

Negócios multilíngues

A poucas quadras do café russo fica o estúdio de bem-estar de Anastasia Rossa, 31. No espaço de estética clean trabalham duas russas e cinco brasileiras.

“Achei que meus clientes seriam mais russos, mas hoje tenho vários alunos brasileiros e de outras nacionalidades. Só nas aulas especiais para grávidas é que o estúdio fica cheio de russas”, brinca Anastasia, ela mesma mãe de um recém-nascido.

Anastasia veio para o Brasil há quatro anos, também no contexto da guerra, após conhecer seu marido na Rússia. Ele já tinha negócios por aqui, focados na construção civil e no ramo imobiliário. “Moramos um pouco em São Paulo e depois mudamos para Florianópolis, pela segurança e pelas praias.”

A mudança para o Brasil fez Anastasia se reinventar. Se na Rússia ela trabalhava no mercado de luxo, por aqui ela teve contato com diferentes rituais e aprendeu a prática do sound healing, terapia por meio do som.

Ela conta que começou a dar sessões em espaços de terceiros, “mas era complicado levar os instrumentos para cima e para baixo”. Aí ela tomou coragem e abriu seu próprio espaço.

Prestes a completar um ano, o estúdio de bem-estar Soul Me oferece aulas de pilates solo, yoga e dança. “Temos aulas em diferentes idiomas: em russo, em português e em inglês”, orgulha-se.

Outros negócios já estão em funcionamento em Florianópolis há mais tempo. No Centro, o restaurante Matryoshka – Sabores do Leste Europeu opera há mais de sete anos e já recebe mais brasileiros do que russos.

No Norte da Ilha, o casal Tatiana Treskova e Roman Gorodishchenskii administram uma pequena locadora de veículos chamada Carro4You, também para um público misto.

Há relatos de russos proprietários de pizzarias, restaurantes e até cervejarias. O Instagram está repleto de anúncios de imóveis em russo e de russas oferecendo assessoria para o parto na rede hospitalar pública de Florianópolis.

Rede de apoio na informalidade

Enquanto alguns russos saem da informalidade e veem a clientela brasileira aumentar, muitos ainda operam entre conterrâneos.

No Telegram e seus vários fóruns reunindo russos em Florianópolis, é comum a oferta de comidas típicas congeladas e serviços de fotografia, baby-sitter e limpeza. Cada família que vai embora anuncia de carros a eletrodomésticos, e cada nova família que chega aproveita a pechincha.

Com as sanções impostas ao sistema bancário russo, a comunidade de imigrantes se vira como pode. Se alguém precisa fazer alguma transação bancária na Rússia, é só buscar alguém que precisa de reais no Brasil e mandar um Pix. A transferência quebra o galho e ainda dribla o IOF.

“Migrar é para quem não tem medo da mudança e está disposto a sacrificar algo em termos de trabalho e de estabilidade”, filosofa Eugênio Lavrov, (sobrenome fictício), de 39 anos.

Ele sabe do que está falando. Eugênio deixou São Petersburgo, onde trabalhava como gerente de vendas no setor de alimentação, e hoje é marido de aluguel: faz bicos de mecânico, eletricista, motorista e com limpeza pesada, ainda na informalidade e majoritariamente para outros russos.

“Saímos da Rússia no final de março de 2023 porque somos contra essa guerra”, explica. Por dois anos, ele, a esposa e duas filhas moraram em Mar del Plata, na Argentina, onde a situação econômica familiar não era das melhores. Até ouvirem sobre a diáspora russa em Florianópolis e migrarem para o Sul do Brasil.

“Em Florianópolis existe uma grande comunidade russa, que se ajuda socialmente e que nos permite recomeçar a vida e ganhar dinheiro de alguma forma.” Enquanto Eugênio faz seus bicos, sua esposa vende comida típica congelada e cuida da filha caçula, de 1 ano e 5 meses, que nasceu no Brasil.

Outro exemplo de empreendedorismo na capital catarinense vem do casal Natalia Kariukina, 34, e Stanislav Kariukin, 37. Eles abriram uma sauna russa (Banya) no Rio Tavares, bairro ao Sul de Florianópolis.
“Construímos a sauna primeiro para nós, por sentirmos falta. É algo muito tradicional na Sibéria, onde nascemos”, recorda Natalia. “E depois abrimos para outras pessoas.”

O local feito de cedro-rosa recebe grupos de cinco a oito pessoas para sessões de relaxamento que duram até quatro horas. O valor é de R$ 500, em média, por pessoa. E a clientela é majoritariamente russa.

“Os brasileiros ainda estranham, mas depois que conhecem a nossa sauna entendem que ela é diferente de uma sauna de condomínio. Aqui oferecemos um espaço de cura e relaxamento.”

O negócio tem dado tão certo que o casal deixou para trás o passado profissional. Ela era diretora de uma empresa de equipamentos como caixas-registradoras e softwares para varejo, e ele era programador.

“Florianópolis nos acolheu, nos apaixonamos e ficamos aqui”, conta Natalia. O filho mais velho do casal tem 9 anos. A caçula de 4 anos é manezinha, nascida na capital catarinense.

Salão de beleza ucraniano

Florianópolis também tem recebido ucranianos, bielorrussos e cidadãos de outras ex-repúblicas soviéticas.

A ucraniana Karina Nakonechna, 30, é uma delas e acaba de inaugurar seu salão de beleza no Centro de Florianópolis.

“Nunca imaginei que ia abrir meu próprio salão. Nunca quis ser uma mulher de negócios”, comenta. “Mas a vida quis assim. E não tem nada de assustador. Sigo passo a passo, aprendendo todos os dias.”

A chegada de Karina ao Brasil também tem a guerra como pano de fundo. Ela estava há cinco anos na Coreia do Sul, onde se especializou em manicure, quando o conflito entre Rússia e Ucrânia eclodiu.

“Eu ainda tinha mais um ano de contrato com uma empresa coreana. Tive uma longa conversa com a minha irmã e ela disse: ‘vamos para o lugar mais longe que a gente puder. Vamos para o Brasil.’”

Ao chegar, Karina abriu uma conta no Instagram e começou a trabalhar oferecendo manicure em gel. Só que a salinha comercial que ela alugou ficou pequena para tanta demanda. “No começo, eu cuidava da agenda, atendia os clientes e ainda limpava o local sozinha. Mal tinha tempo para dormir.”

Ela tomou coragem e encontrou um espaço no térreo de um condomínio residencial na região central da cidade. Outras profissionais de estética e beleza foram entrando em contato, e a equipe já aumentou para oito pessoas de diferentes nacionalidades. O It’s My Beauty Lab oferece serviços de manicure, pedicure, cílios, sobrancelhas e massagem e ainda vai abrir um espaço para café.

Em breve, a mãe de Karina chega ao Brasil para apoiar o negócio. “Há algumas semanas o governo russo bombardeou minha cidade no interior e destruiu a escola onde minha mãe trabalhava. Ela não queria deixar a Ucrânia, mas agora está vindo para cá também.”

Enquanto o conflito continua do outro lado do mundo, sem perspectivas de acabar, russos e ucranianos buscam uma nova vida no Sul do Brasil.

“Acho que todos os estrangeiros que chegaram e que estão chegando aqui são muito fortes. Todos passaram por muitas coisas que não gostariam”, reflete.

“Nós não temos a opção de desistir. Temos que encontrar nossos talentos e tentar, de alguma forma, seguir em frente”, continua. “No final das contas, essa situação sombria e triste da guerra e de mudanças forçadas de país, às pressas, revelam toda a luz que emana das pessoas.”

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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de www.seudinheiro.com.

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